
9 formas de queimar dinheiro antes de lançar seu produto
Por Leonel Rocha · Product Designer
· 4 min de leitura
Os erros que mais queimam dinheiro antes do lançamento são falar pouco com clientes, construir um MVP grande demais, fazer trabalho sob medida de graça e ignorar um modelo de negócio que não fecha. O postmortem da Cydoc, publicado em fevereiro de 2026, mostra os nove em detalhe.
- 7 anos
- de operação da Cydoc até o fechamento, em agosto de 2025
- US$27,9 mil
- de receita total da Cydoc em 2024
- 4
- clientes pagantes no pico
Rachel Draelos é médica e doutora. Em 2018, no meio da formação, começou a construir a Cydoc, uma startup de IA para ajudar médicos a documentar consultas. Sete anos depois, em agosto de 2025, fechou a empresa. Em 21 de fevereiro de 2026, publicou um postmortem detalhado no blog Glass Box Medicine, com números e nove erros.
Li o texto inteiro e me reconheci em várias conversas com founders. Os números dela são pequenos, e é por isso que servem: mostram como dá para perder anos sem nunca gastar uma fortuna de uma vez. Abaixo, os nove erros dela, adaptados para quem está prestes a colocar um produto no ar.
Os números da Cydoc
- 7 anos como founder e CEO, sozinha.
- US$265 mil captados com família, amigos e médicos, depois de apresentar para mais de 35 fundos.
- Primeira receita em dezembro de 2023: US$190,36.
- Receita total em 2024: US$27,9 mil.
- 4 clientes pagantes no pico.
- O produto economizava cerca de 10 minutos por consulta, segundo clientes reais.
O produto funcionava. O negócio não fechava. Essa diferença é o assunto deste texto.

1. Falar com clientes tarde e pouco
Ela achava que já sabia o que os médicos queriam. Falou com poucos clientes reais, e tarde. Hoje recomenda no mínimo 20 entrevistas, idealmente mais de 100. A frase dela que mais gosto: “Nada mostra interesse real do cliente como dinheiro vivo.”
2. Construir um MVP grande demais
A Cydoc saiu completa, polida e atrasada, com interfaces que nenhum cliente usou. É o erro que mais vejo. O founder chama de MVP algo que levaria um ano para construir. MVP é o menor produto que alguém pagaria para usar, não a primeira versão do sonho.
3. Desenvolver sem processo
No começo, ela reescrevia código para cada variação de interface e não tinha práticas padrão de engenharia. Cada mudança custava o dobro. Sem processo, velocidade no começo vira lentidão no meio.
4. Esperar que o cliente venha sozinho
Ela assumiu que os clientes chegariam e apostou que adicionar um escriba de IA facilitaria a venda. Não facilitou. Funcionalidade nova não substitui alguém vendendo.
5. Fazer tudo sozinha
Fundadora solo, ela acumulava os papéis de CEO, CTO e responsável por receita. Vendas e marketing ficaram sem atenção. Se você não tem sócio técnico, o problema não é só construir. É ter tempo para vender enquanto alguém constrói.
6. Evitar a integração que o cliente precisava
Em vez de integrar com os prontuários eletrônicos que os médicos já usavam, ela tentou construir o próprio. Cada integração custaria entre US$4 mil e US$6 mil, mas sem ela a adoção ficou difícil demais. O cliente não troca o sistema que usa todo dia para testar o seu.
7. Confiar num diferencial que não protegia
Ela contava com duas patentes e com a complexidade do código. Um cliente construiu uma versão mais simples da ideia central. Nas palavras dela, o fosso da Cydoc “era mais uma poça de chuva”.
8. Cair na armadilha do desenvolvimento sob medida
Uma clínica de psicologia acenou com uma assinatura de US$5 mil por mês. Ela fez trabalho sob medida, sem cobrar, num fluxo com mais de 200 perguntas. A assinatura nunca veio. Promessa de contrato não é contrato.
9. Ver tarde demais que o modelo não fechava
Hospedagem e IA custavam cerca de US$70 por médico. Pequenas clínicas pagavam menos de US$100 por mês. Sobravam uns US$30 de margem, antes de qualquer integração. A conta dela: 11 anos para empatar com cada clínica. Quando ficou claro, quase não havia mais dinheiro.
O padrão por trás dos nove
Olhando a lista, quase todos os erros têm a mesma raiz: tempo e dinheiro gastos construindo antes de ter prova de que alguém pagaria. MVP grande, integração errada, trabalho de graça e modelo que não fecha são versões da mesma decisão adiada.
É por isso que eu insisto tanto em data. Uma data fechada obriga a escolher o que entra e o que sai, e obriga a colocar algo na mão do cliente cedo. Sem data, todo erro da lista tem tempo para crescer.
O que isso muda para você
Antes de investir no próximo mês de desenvolvimento, responda:
- Quantos clientes pagaram ou se comprometeram a pagar?
- O que no seu produto nenhum cliente pediu? Corte.
- Você está fazendo trabalho sob medida sem contrato?
- Quanto custa servir um cliente e quanto ele paga? A diferença fecha a conta?
- Qual é a data em que o produto vai estar no ar, e o que precisa sair do escopo para ela ser real?
Como fazemos no Studio
O preço é fechado depois do diagnóstico, e o prazo vai escrito no contrato. No diagnóstico, a pergunta principal não é “o que dá para construir”, e sim “qual é o menor produto que prova o negócio”. A AI Vou Eu tinha gastado R$200 mil em 3 estúdios sem produto no ar. Com o escopo cortado para caber na data, foi ao ar em 4 semanas.
Se você quer colocar um sistema ou SaaS no ar sem repetir esses nove erros, comece pelo diagnóstico do nosso serviço de sistemas e SaaS.
Perguntas frequentes
Quantas entrevistas com clientes devo fazer antes de construir?
No postmortem, a autora recomenda no mínimo 20 entrevistas, idealmente mais de 100. O número importa menos do que ouvir gente que pagaria pelo produto.
Como saber se meu MVP está grande demais?
Se você não consegue colocar no ar em poucas semanas, ou se ele tem telas que nenhum cliente pediu, está grande demais. Corte até sobrar o fluxo que alguém pagaria para usar.
Vale fazer customização para fechar o primeiro cliente grande?
Só com contrato e pagamento. Trabalho sob medida de graça, em troca de uma promessa de assinatura, foi um dos erros mais caros da Cydoc.
Fontes
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